Senna vive! Trinta anos após tragédia na Fórmula 1, jovens pilotos mantêm legado de ídolo

da aajogo

da pgwin: Assim como no futebol, em que a paixão por um clube perpassa gerações com o incentivo familiar, o amor por um ídolo mundial do automobilismo segue vivo três décadas depois de sua morte. Ávidos por manter o legado de Ayrton Senna da Silva, jovens pilotos almejam representar o país na Fórmula 1 e resgatar os tempos áureos do Brasil na categoria mais prestigiada do esporte a motor.

Nesta quarta-feira (1º/5), completam-se 30 anos do trágico acidente que vitimou Senna no Grande Prêmio de San Marino, no autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, na Itália. A bordo da Williams FW16, na sétima volta, o tricampeão mundial perdeu o controle do veículo na curva Tamburello e bateu no muro.

Nascidos no início dos anos 2000, as promessas do automobilismo brasileiro Ayrton Gil e Rafaela Ferreira não experienciaram o luto da perda de Senna em 1994, mas suas vidas e carreiras são profundamente influenciadas pelo legado deixado pelo ídolo da F1.

O belo-horizontino Ayrton Gil, de 20 anos, por exemplo, carrega no primeiro nome uma homenagem ao piloto brasileiro, dada por seu pai, o empresário Pedro Guimarães, que é um aficionado pela trajetória de Senna. Coincidentemente, o filho se tornou piloto de kart.

“Sempre acopanhei muito a Fórmula 1, em especial o Ayrton Senna. Então tive o prazer de colocar o nome do meu filho em homenagem ao Ayrton. Com seis anos e meio, ele veio brincar numa pista de kart, gostou e com sete anos, mirim ainda, foi campeão invicto da Copa Sudeste. Ganhou em Minas, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. De verdade, eu não tinha essa ideia de que ele se tornaria piloto. Inclusive, quando ele foi numa pista de kart pela primeira vez, foi apenas para assistir a irmã mais velha andar”, conta Guimarães.

A compreensão sobre a importância de Senna surgiu em Ayrton Gil ainda na infância, poucos dias depois de dirigir um kart pela primeira vez numa pista em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Para ele, que hoje é nove vezes campeão mineiro, carregar o mesmo nome do ídolo é motivo de orgulho, porém, também uma responsabilidade.

“Um nome icônico e muito grande na Fórmula 1, ao meu ver o Senna foi o maior. Não por números, mas sim pelo que fez na história da categoria. Ter o mesmo nome é uma responsabilidade muito grande, né? Fico muito agradecido por isso”, disse.

“Desde pequeno, em todos lugares onde vou e falo meu nome, eles lembram do Senna. Todo mundo associa. Aí falam que meu pai me deu esse nome para ser piloto. Não foi não. Foi realmente vontade minha”, ressalta Ayrton Gil.

Evidentemente, o piloto sonha em disputar a Fórmula 1, que não tem um brasileiro titular há seis anos. O último foi Felipe Massa na temporada de 2017 – correu até novembro daquele ano. Para encerrar essa sina, o jovem mineiro projeta alcançar uma prestigiada vaga na F1 em 2026.

Contudo, ele precisa passar primeiro pelas categorias de base. A Fórmula 4 Brasil, criada no país em 2022, regulamentada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), pode ser o próximo caminho. O campeonato vale pontos para a obtenção da superlicença para pilotar na F1.

“O sonho de todo piloto é chegar na Fórmula 1. Se tudo der certo, penso que em 2026 posso chegar lá. Tem a trajetória, né? Hoje em dia tem a Fórmula 4, a 3 e a 2 para chegar na 1. Não dá para ter certeza do que vai acontecer, mas Deus está no comando. Tenho essa meta e conforme o tempo vamos caminhando para que tudo aconteça”, intenciona.

Protagonismo feminino inspirado em Senna

Rafaela Ferreira, de 19 anos, é outra promessa do esporte que se inspira em Senna. Nascida em Criciúma, Santa Catarina, a pilota começou a se interessar por automobilismo desde cedo, graças à influência da família. Ela é hoje um dos grandes nomes da Fórmula 4 brasileira e está na segunda temporada pela equipe TMG Racing.

Em 2023, se tornou a primeira mulher a subir no pódio e, neste ano, marcou seu nome na história da categoria novamente ao conquistar duas vezes a pole position na etapa de Interlagos, em abril.

Atualmente, Rafaela está na terceira colocação da classificação geral após duas etapas da F4. A pilota conta que, quando começou a correr, seu pai a incentivava mostrando vídeos de Ayrton Senna, principalmente as celebradas corridas na chuva, situações em que o brasileiro se destacava ainda mais.

“Quando eu comecei a correr no kart, lembro que não gostava muito de andar na chuva, então meu pai sempre trazia os vídeos do Ayrton Senna nas corridas, mostrando ele ultrapassando todo mundo. Acabou que o Senna entrou na minha vida”, relata.

Rafaela Ferreira em Interlagos

Rafaela Ferreira conquistou a pole duas vezes na etapa de Interlagos

Rafaela Ferreira é inspiração para jovens fãs de Fórmula 1

Rafaela Ferreira pilota em Interlagos na Fórmula 4

Rafaela relembra ainda que, a partir desse incentivo paterno, começou a pesquisar informações sobre a vida e personalidade de Senna. “Eu comecei a buscar mais, a procurar detalhes sobre a vida dele, a assistir a corridas, assistir às entrevistas, e ele acabou se tornando um ídolo. Não só para mim, mas com certeza para todos os jovens. Ele é o maior ídolo hoje do Brasil no automobilismo. Fico muito feliz que um brasileiro andou bem na Fórmula 1 e era uma pessoa muito boa”, disse.

Na história da F1, desde 1950, apenas cinco mulheres pilotaram os monopostos da categoria em um Grande Prêmio. São elas: as italianas Maria Teresa de Filippis (pioneira no esporte que correu entre 1958 e 1959 ), Lella Lombardi e Giovanna Amati; a britânica Divina Galica; e a sul-africana Desiré Wilson.

A última a correr foi Giovanna Amatti, em 1992, pela extinta Brabham. Desde então, outras mulheres trabalharam nos bastidores da Fórmula 1 como pilotas em testes de equipes, entretanto, não chegaram a competir em um GP. Atenta ao cenário, a jovem Rafaela Ferreira está esperançosa com uma mudança de paradigma.

Segundo ela, com o interesse das mulheres pelo esporte, conciliado com iniciativas como a F1 Academy – competição feminina que está em sua segunda temporada em 2024 – as chances de uma pilota correr na F1 ainda são escassas, porém mais prováveis em comparação com os últimos anos.

“Como o automobilismo começou sendo um esporte só para homens, acredito que é por isso que hoje temos poucas mulheres competindo. Mas tenho visto nos últimos dois, três anos um ingresso muito grande de mulheres, principalmente na área de mídia, nos bastidores, engenheiras…”, salienta Rafaela Ferreira.

“Como estou há 11 anos na modalidade, consigo ver isso porque normalmente eu era a única mulher e agora tem mais meninas correndo. Como já é difícil para um menino chegar na Fórmula 1, dez mil pilotos, por exemplo, correm no mundo todo e apenas 20 chegam na F1, então para as meninas acaba se tornando muito mais difícil. Precisamos achar um piloto completo. Tem que ser bom, talentoso, tem que ter dinheiro, que é importante também, se comunicar e entender o carro”, pondera.

Legado de Senna motivou jovem jornalista

Como destacou Rafaela, a Fórmula 1 recebe cada vez mais mulheres de distintas áreas profissionais, além do evidente aumento no número de fãs que acompanham com afinco as corridas. Uma pesquisa divulgada em 2023 pela iniciativa More Than Equal (Mais do que igual, em tradução literal), que tem o ex-piloto escocês David Coulthard como um dos fundadores, mostra que o público feminino já corresponde a 40% do total. Outra constatação importante, elas são 70% mais propensas ao engajamento sobre a modalidade nas redes socias.

Uma delas é a estudante paulista Alice Alves, de 20 anos, que cursa o sétimo período de jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela tem Ayrton Senna como maior ídolo e sonha em cobrir a F1 profissionalmente.

“Existem coisas que fazem nosso coração bater mais forte. Estar num autódromo e ouvir o som de um motor ligando, aquilo ali faz com que eu me sinta viva. Então, meu sonho é trabalhar 100% do tempo com o automobilismo”.

Alice Alves, estudante de jornalismo

Curiosamente, a futura jornalista despertou o interesse por Ayrton Senna depois de calorosas discussões com o próprio pai sobre quem é o melhor piloto da Fórmula 1 de todos os tempos. Inicialmente, Alice tinha o inglês Lewis Hamilton como sua maior referência.

“Isso deve ter ocorrido por volta de 2018, 2019… Adolescente ama discordar, e eu era uma adolescente. Batia o pé dizendo que o Hamilton era melhor! Em número de títulos, de fato ele é maior, com sete, e o Senna com três. Mas quando analisamos a importância de cada um, é incabível essa discussão. Depois de debater com meu pai por um tempo, decidi que precisava saber mais sobre quem era Ayrton Senna, essa figura tão presente para o Brasil”, rememora.

“O próprio Hamilton sempre falou muito do Senna, meu pai falava do Senna, então veio aquele ímpeto: ‘Preciso saber quem é Ayrton Senna. Dali para frente, ele se tornou talvez a pessoa mais importante na minha vida”, acentua.

Motivada pela trajetória de Ayrton Senna, exemplo de coragem para muitos brasileiros, Alice destaca que a expansão da presença feminina no automobilismo se deu de maneira semelhante, com muita luta, superando as adversidades.

“A gente vê que de fato a presença feminina no automobilismo tem se intensificado agora. É que agora chutamos a porta e não tem mais volta! Antes essas mulheres existiam, mas estavam sendo silenciadas. Agora não mais, acabou essa brincadeira de que o automobilismo é um esporte para homem. O automobilismo é um esporte para quem quiser curtir, e o espaço do paddock é para homens e mulheres na mesma medida”, finaliza.

Três perguntas para Ayrton Gil

No Ataque: Embora tão jovem, sua trajetória no kart é repleta de conquistas. Entre elas, qual é a mais importante ou marcante?

Ayrton Gil: “A memória que eu tenho mais marcante foi uma final de um campeonato aqui em Minas, exatamente em um dia 1º de maio, acho que em 2013 ou 2014. Coincidiu a data e meu pai ficou extremamente emocionado”.

NA: A Fórmula 4 pode ser uma realidade para você em breve?

AG: “Eu nunca andei em um veículo como esse, mas já estive presente no box da Fórmula 1 com o Sérgio Sette Câmara, que já tem mais experiência. Tenho contato com esse pessoal e sempre estive por perto. Eu creio que se eu for muito bem na Fòrmula 4. conseguireir ir para a F3 ou a própria F4 na Europa”.

NA: Quando você assiste ao vídeos do Ayrton Senna nas pistas, o que mais te inspira e como você é ao correr?

AG: “A chuva! Ele era excepcional, um cara extremamente diferente. E também o seu jeito de inovação. Ele foi um dos pilotos que inovou a Fórmula 1 com treino, disciplina e tudo. Isso para mim é o que mais o diferenciou de todos os pilotos. Dentro da pista, eu sempre tento manter a cabeça no lugar e não deixar a emoção tomar conta”.

Três perguntas para Rafaela Ferreira

No Ataque: Nesta temporada da Fórmula 4, após duas etapas, você está entre os três primeiros colocados, disputando o título, inclusive. Como você vê o ano de 2024, ele é determinante para sua carreira e qual o principal objetivo?

RF: “Este ano eu estou trabalhando e lutando bastante, ali treinando, para conquistar o título da Fórmula 4. Vai ser algo maravilhoso na minha carreira. Nenhuma mulher venceu um campeonato de Fórmula 4 no mundo, então estou trabalhando para isso e também para conseguir bastante pontos. Estou em terceiro lugar no campeonato, empatada com o segundo, e com um ritmo bem forte para lutar mesmo pela liderança. Para o próximo ano, meu objetivo é continuar nas fórmulas, mas disputar alguma categoria na Europa já visando esse caminho da Fórmula 1, ainda não decidi ainda se será a Fórmula 4 ou a F1 Academy. Ainda estamos buscando as possibilidades e ver o que será melhor”.

NA: Rafaela, os fãs do automobilismo estão cada vez mais engajados nas redes sociais e eu vejo que você, que é de uma geração já imersa nessas ferramentas, as utiliza frequentemente mostrando os bastidores de sua carreira. Qual a importância dessa questão para um piloto hoje?

RF: “Acredito que hoje as redes sociais são muito fortes em nossas vidas e ela são uma imagem de quem a gente é. No começo, eu tinha muita vergonha de postar, achando que ninguém ia querer saber nada. Mas eu recebi o incentivo dos meus pais: ‘Rafa, posta, é sua vida, tu é piloto, não é todo mundo que é assim. Você pode inspirar outras meninas!’. E isso é muito verdade. Gosto de postar agora muito os bastidores, mostrando tudo o que estou fazendo, me dedicando para isso e mostrar que qualquer uma pode chegar lá! Não tem muito mistério. Com certeza é muito importante para inspirar outras meninas, dar visibilidade também, como se fosse nosso currículo para patrocinadores e outras equipe verem que realmente estou focada e é um ambiente de trabalho mesmo”.

NA: Qual foi o momento mais especial em sua carreira?

RF: “Em 2022, no kart, no Brasileiro de Kart, ainda muito bem, sempre no top 5. Era a única mulher competindo entre 30 homens na principal categoria da modalidade. Fiquei muito feliz porque terminei em quarto lugar. Então posso dizer que eu era a quarta melhor do Brasil, né? Fiquei muito feliz foi o momento que percebi, acho que esta na hora de ir para o monoposto e fazer essa transição”.

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